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Opinião | ''Bug do milênio'': o que causou a decadência criativa no cinema


William FriedkinJohn CarpenterSam RaimiJames Cameron — o que todos estes grandes cineastas dos Estados Unidos têm em comum? (Além, é claro, da assinatura final como diretores de grandes e ótimos clássicos do cinema de drama e terror[?]) Bom, eu respondo.

Todos estes nomes (e mentes brilhantes) — dentre quase que a maioria esmagadora de cineastas da antiga e conceituada Hollywood, praticamente caíram em "desgraça criativa" após o tal e famigerado "Bug do Milênio" — ou seja, após a debandada dos anos 2000.

Mas por quê? "O que houve para o cinema atual ser tão ruim?" Nós todos nos indagamos. E as teorias e explicações são muitas — umas complexas, outras simples de se entender; mas como todo bom problema, ele próprio traz a semente da resposta. Se fizermos uma engenharia reversa deste problema, em sua causa há uma solução (que nunca virá).

É BOM QUE ENTENDAMOS O QUE SÃO OS FILMES (E POR QUE EXISTEM):
Filmes nada mais são do que histórias encenadas que visam criar lucro aos que os produz — grandes e portentosas empresas com cunho e viés focado e atirando em retorno financeiro.

É isto aí. Filme obra-prima ou não, comovente ou não, feito com carinho ou não, independentemente, todos visam retorno aos que os fez — por princípio até profissional e pragmático (ainda mais nos dias de hoje).

Dinheiro, então, é fator-chave nesta relação — se quisermos compreender este déficit criativo que a modernidade trouxe; e com isto, a forma como os grandes filmes e o mundo rumaram para que a indústria cinematográfica adotou no lido dos seus lucros — e na perseguição dele, fazem toda a diferença.

OS PROBLEMAS DOS FILMES FALAM POR SI SÓ:
O problema é que atualmente esta corrida pelo ouro tem se acirrado e acelerado. O mundo tomou novos contornos, temos coisas que não tínhamos no passado, é simples de se entender.

A indústria mudou. Hoje a forma como se distribuem filmes — associada inexoravelmente a como chega-se aos clientes/consumidores, e por fim, como obtêm-se lucros, também mudou (e radicalmente).

O cinema desde o seu surgimento nos confins do pré-milênio de 1900 já adotava uma forma de distribuição de suas obras — então com os cinemas físicos como sua primordial e única forma de distribuição e acesso pelos seus espectadores em poltronas compartilhadas.

Hoje não. Um filme é capaz de se consumir e acessar muito mais rápido do que se possa assistir ou mesmo escolher — e além do mais, filmes hoje tornaram-se não uma forma principal para consumir-se histórias contadas, há séries — que a rigor, tem mostrado potencial lucrativo para emissoras e até batido de frente com a atualmente senil e capenga Hollywood.

SÉRIES DE TV COMO O NOVO MEIO DE CONTAR HISTÓRIAS (E LUCRAR):
Recentemente, vimos não apenas Hollywood ser confrontada pela nova forma de fazer "cinema" com as emissoras de televisão ganhando protagonismo e proeminência, como também, o grande prestígio que se agregou às grandes premiações que são parte importantíssima nesta equação — pois ditam (na cabeça dos consumidores) aquilo que vale ou não a pena de ser consumido, — pelo fator manada, ou não; e que trazem este climinha que espreme a criatividade dos roteiristas, que é a competição — sempre o melhor para quem consome.

A FORMA DE CONSUMIR HOJE X AS FORMAS DO PASSADO:
Um fato é certo: o mundo mudou, e desde a coletivização da Internet — após os anos 2000, consumir filmes ficou mais fácil, rápido e simples. Isto é um fato inalterável — goste você, ou não. Isto jamais mudará novamente (ao menos que alguma catástrofe global aconteça). O ser humano não quer voltar a consumir o obsoleto. É óbvio.

Locadoras de DVD e fitas VHS — tal qual o orelhão (aquele da fila de espera para telefonar) ficaram no passado pois foram substituídas por novas soluções melhores (ou discutivelmente melhores, no caso do streaming), por conta da facilitação extrema que é consumir um filme hoje — seja por meios legais ou não. O cinema vem até você. As formas de buscar a praticidade, o modernismo, acabaram de vez com as formas de distribuição de filmes do passado.

No entanto, este problema de aderir ao moderno pesou muito na equação da confusão geral das produções de filmes. Agora locadoras — que até pouquinhos anos atrás, iam tornando-se anacrônicas — ligadas a valores atrasados; o DVD e o conforto prático de consumir um filme via digital e rebobinar cenas inteiras ao alcance instantâneo de um clique, agora ditavam o que era moderno. Mas até isto já é obsoleto, também com o novo advento do streaming.

AS ROTINAS RITUALÍSTICAS DE SE CONSUMIR UM FILME:
Antigamente todos tinham o hábito de locar filmes aos finais de semana. Isto criou e movimentou toda uma indústria. Hoje basta pagar pelo serviço de streaming. Antigamente, o filme tinha algo de ritualístico: desde comprá-lo — algo que agregava valor e mostrava o quão sério podia se levar uma obra da sétima arte (ou mesmo para CDS e música), e até digo que filmes eram tratado com maior seriedade, por isto.

Talvez se exigisse menos também, por isto, (só quem nunca viu ou teve contato com uma estante armazenada num recinto particular com conteúdo físico — seja ele qual for [livros, jogos, vinil, CDS, DVDs, fitas BETAMAX, VHS, ou o que quer que seja] não sabe o quanto manter o que se gosta ou se ama muito numa prateleira com sua arte e embalagens próprias; dá muito maior valor à obra do que apenas se consumido através do filme, simplesmente transmitido por terceiros, de forma 100% avulsa), é deste ritual que falo.

Compartilhar grandes filmes ocultos dos grandes catálogos e menos populares também tinha o seu portentoso valor entre fãs de cinema. Hoje e sempre isso será feito, mas a atenção aos filmes tornou-se algo completamente diferente, o mundo tornou-se mais imediatista e que demanda maior complexidade de desenvolvimento de histórias, personagens e aprofundamento dramático — e até por isto, as séries tem se saído na frente, também.

A pipoca ainda não saiu de moda, mas locar filmes tornou-se algo inconcebível. E quais mais rotinas ritualísticas se perderam? Dentre elas, uma PRIMORDIAL: colecionar filmes. Isto ditava lucros para empresas e suas produtoras de filmes, movimentou toda uma indústria — elenco, diretores e roteiristas; tudo isto apenas porque pessoas locavam filmes (muitas ótimas gemas raras/esquecidas hoje foram feitas como filmes direto para TV, e principalmente lançados direto nas locadoras, desde os anos 1980).

Agora, menos pessoas colecionavam mídias físicas — no Brasil, o que já vinha mal, tornou-se drasticamente mais dramático, com todo um ramo indo por água abaixo, e tornando-se praticamente uma possibilidade apenas através de pirataria ou importação caríssima de produtos em outros idiomas (leia-se em inglês).

STREAMING E OS SEUS QUIPROQUÓS:
A aceleração da modernização dos modos de criação/produção e distribuição de filmes fez surgir o streaming — após a explosão do YouTube em meados de 2006 e 2007 que — me lembro bem, mudaram para sempre a forma do mundo consumir entretenimento, para nunca mais o que era antes.

O streaming é excelente, mas é volúvel demais. Sempre é bom lembramo-nos que o filme/série/desenho/música não nos pertence (realmente), apenas está lá, e temos acesso livre por um período de tempo indeterminado — enquanto o serviço que transmite o determinado arquivo — sempre em um servidor físico em algum lugar do mundo; não sofrer alguma pane, sair do ar, ou sofrer qualquer tipo de interferência por meio do serviço, que pode removê-lo a qualquer instante.

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